Pense globalmente, se alimente na esquina
Eduardo Pegurier*
28.08.2005
Os alimentos viajam cada vez mais para chegar à boca dos consumidores.
O incipiente movimento “Comida Local” ( Local Food ) aponta essa tendência
como gravemente nociva para o meio ambiente e o modo de vida tradicional de
comunidades rurais. Segundo seus participantes, quanto mais perto comprarmos
nossos alimentos, melhor.
O transporte fácil e barato é um forte impulsionador da globalização.
Bens antes difíceis de exportar, devido à dificuldade de transpor
grandes distâncias, podem, agora, ser entregues em todo o planeta. Componentes
de computadores, peças de carros, brinquedos e vestuário, tudo
se move. Inclusive a comida. Em Chicago, um estudo realizado pelo Departamento
de Agricultura americano mostrou que a distância média que os
alimentos viajam para chegar lá, no período de 1982 a 1998, subiu
de 1.992 km para 2.428 km. Um aumento de 22% .
Os ativistas do Comida Local têm bons argumentos econômicos. Subsídios
dados à agricultura industrial contribuem para dizimar os pequenos produtores
locais. Não é segredo que governos do mundo inteiro ajudam, em
geral, os médios e grandes produtores com crédito barato e preços
mínimos. Os casos mais conhecidos e descabidos estão na rica
tríade EUA, Japão e União Européia. Só esta última
gasta metade do seu orçamento com subsídios agrícolas.
O transporte por longas distâncias, ubíquo e barato, a que nos
acostumamos é, freqüentemente, movido a subsídios governamentais.
Isenções fiscais para grandes empresas petrolíferas, subsídios
ao consumo de diesel e à construção de estradas reduzem
artificialmente esses custos. Por fim, esse transporte não leva em conta
sua contribuição para o efeito estufa. Se essa externalidade
fosse contabilizada, o preço da movimentação dos alimentos
também sofreria. Tudo isso torna difícil a vida dos pequenos
produtores que, além de não ter escala, não têm
acesso aos ouvidos dos políticos que dão o atalho aos cofres
públicos.
Eis alguns números dos ativistas contra a globalização
da comida. Se os habitantes do estado de Iowa, nos EUA, comprassem 10% da sua
comida localmente, evitariam anualmente a emissão de 3.500 toneladas
de dióxido de carbono . Uma organização japonesa calculou
que se a comida no país não fosse importada, isso equivaleria à redução
do consumo de energia doméstica em 20%. Pesquisadores ingleses calcularam
que os custos ambientais do transporte de comida no país ultrapassam
os 16 milhões de dólares por ano .
É claro que os ativistas apontam somente os problemas da comida “estrangeira”.
Eles também cultivam um forte apelo tribal, usado para defender os pequenos
produtores regionais contra a grande indústria agropecuária internacional.
Defendem que a comida local é mais fresca, diversa e, em geral, mais orgânica
e comunitária. Um diferencial simpático. Quem não gostaria
de conhecer pelo nome os produtores que provêem a sua mesa?
Mas é bom não esquecer que o mundo moderno, urbano, rico e sofisticado,
só se tornou possível pelos avanços na agricultura, que
liberaram o trabalho para outras atividades. Até Marx reconheceu que
a revolução industrial tirou o homem de uma existência
dura e limitada no campo. Os aumentos da produtividade e do comércio
são os motores da prosperidade material. A escala da produção
e os transportes cada vez mais eficientes são os seus coadjuvantes indispensáveis.
O comércio internacional tem outras vantagens. Reduz tensões
políticas, aproximando governos e povos. Reparte o esforço de
desenvolvimento tecnológico entre os países. As novas descobertas
fluem embutidas nos produtos exportados, carregadas pelas empresas multinacionais
e nos intercâmbios científicos. Tudo isso é muito bem-vindo,
inclusive em relação aos alimentos. Desde que os preços
não sejam distorcidos por subsídios e externalidades proporcionados
pela generosidade dos governos com os ricos nem pela omissão em relação
aos danos ambientais.
* É jornalista e mestre em economia pela universidade George Mason.
Dá aulas na PUC-RJ.
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