BIOCOMBUSTIBLES

   

Biocombustibles y transgénicos: P&D em etanol no exterior

Publicada originalmente em 18 de  setembro 2006, na seção  LEITURAS
Por Rachel  Bueno rbueno@reitoria.unicamp.br
 

  P&D em etanol no exterior
The New York  Times, 8 e 12 de setembro de  2006

Os biocombustíveis estão no centro dos dois textos. O primeiro  relata os esforços de grandes empresas produtoras de sementes e  start-ups de biotecnologia para desenvolver culturas  voltadas especialmente para a produção de etanol. Por engenharia  genética ou por reprodução convencional, os cientistas dessas  companhias estão criando variedades de milho e capim capazes de  gerar mais energia por acre plantado — o milho é a principal  matéria-prima do etanol nos Estados Unidos e o capim é uma das  fontes possível para a obtenção do combustível a partir da celulose.  

O segundo texto ressalta o crescimento da produção norte-americana  de biodiesel: de 2004 até hoje, o número de refinarias em atividade  no país saltou de 22 para 76. O governo federal tem um crédito de  imposto que oferece aos produtores e distribuidores de biodiesel US$  1 para cada galão (cerca de 3,78 litros) do combustível misturado ao  diesel convencional. O que mais se vende para o consumidor final nos  Estados Unidos é uma mistura chamada B20, com 20% de biodiesel puro  e 80% de diesel.

Um dos desenvolvimentos mais destacados  pela primeira reportagem é o da Syngenta. Por meio de técnicas de  engenharia genética, a empresa criou uma variedade de milho que  produz, ela mesma, uma enzima fundamental à fabricação de etanol,  normalmente adicionada nas usinas: a amilase. Essa enzima é  importante porque quebra o amido do milho em açúcar, o qual pode  então ser fermentado.

"Para fazer o milho produzir a sua própria  amilase, a Syngenta inseriu um gene emprestado de um tipo de  microorganismo chamado archaea, que vive perto de  respiradouros de água quente no solo do oceano", explica o  jornalista. "O gene — na verdade um composto de três genes de  amilase — foi desenvolvido com a ajuda da Diversa", uma companhia de  San Diego, na Califórnia.  

A Diversa, continua a matéria, já está vendendo a  enzima separadamente. Segundo a empresa, o fato de a enzima ser  derivada de um microorganismo acostumado ao calor permite às usinas  operar em temperaturas mais altas e sob condições mais acidíferas, o  que melhora a eficiência do processo. Já a Syngenta espera colocar  seu novo milho no mercado em 2008. Por enquanto, ela está tentando  aprovar o uso da variedade, no mundo todo, também como alimento para  seres humanos e animais. Essa preocupação se deve ao risco de  polinização cruzada e mistura de sementes entre a variedade  modificada e os tipos destinados ao consumo alimentar.

A Monsanto também está preocupada em ter  variedades de milho mais adequadas à produção de etanol, mais vai  concentrar seus esforços na reprodução convencional por acreditar  que terá resultados mais rapidamente. A companhia, conta o The  New York Times, testou as variedades que já possui para ver qual  delas se sai melhor. A Pioneer Hi-Bred International, acrescenta,  está fazendo o mesmo. Ambas afirmam ser possível conseguir uma  quantidade de etanol de 2% a 5% superior se forem usados os tipos de  milho com maior conteúdo de amido fermentável. Pradip Das, da  Monsanto, disse ao jornal que algumas usinas já começaram a pedir  determinadas variedades aos produtores ou a pagar gratificações  pelas melhores.

Por outro lado, William Niebur, da DuPont, disse ao  repórter que a demanda por um tipo de milho mais resistente, ideal  para a produção de etanol, poderá ser tão grande que os agricultores  ficarão pressionados a plantá-lo seguidamente ao invés de fazer a  rotação de culturas, o que poderá desgastar o solo e permitir o  aparecimento de insetos e doenças.

Na semana anterior à publicação  da matéria, a DuPont e a Bunge anunciaram que sua joint  venture para melhoramento da soja destinada à alimentação  começaria a projetar grãos para produção de biodiesel e outros usos  industriais. O texto define a produção de etanol a partir da  celulose como "a nova fronteira". Nesse campo, destaca os esforços  da Ceres e da Mendel Biotechnology, duas companhias da Califórnia. A

 Ceres, que também fornece tecnologia genética para a Monsanto, está  trabalhando com a Fundação Samuel Roberts Noble, de Oklahoma, uma  referência em capins de forragem. Nas estufas da empresa existem  versões de capim — conseguidas por reprodução convencional e por  engenharia genética — destinadas a produzir mais combustível, a  resistir à estiagem e a ter cadeias de carboidratos mais fáceis de  serem quebradas em açúcar nas usinas.

Richard Hamilton,  diretor-executivo da Ceres, contou ao repórter que algumas  variedades obtidas por reprodução convencional, já em teste, rendem  oito ou nove toneladas de biomassa por acre, contra cerca de cinco  toneladas provenientes do capim comum.

O foco da Mendel Biotechnology é um tipo de capim  nativo da China — por causa disso, ela já estabeleceu uma operação  nesse país. A reportagem diz que, segundo a Mendel, o tal capim,  conhecido como miscanthus, pode render, por acre, mais de  20 toneladas anuais de biomassa.

O diretor-executivo da empresa,  Chris Somerville, que também é professor em Stanford, salientou que  o capim não precisa ser replantado e nem requer fertilização ou  irrigação. "Você pode simplesmente cortá-lo todos os anos durante  dez anos", afirmou ao jornal. O The New York Times lembra que os  desenvolvimentos atuais feitos por engenharia genética têm  preocupado alguns ambientalistas pelo fato de provocarem mudanças  nas estruturas das plantas — antes, os cientistas dedicavam-se mais  a aprimorar os processos químicos envolvidos na produção do etanol.  Um exemplo dessas mudanças estruturais é a tentativa de reduzir a  quantidade de lignina presente nos vegetais — a substância lhes dá  rigidez para que permaneçam de pé, mas interfere na transformação da  celulose em combustível.

Outra preocupação diz respeito ao uso de  árvores e capins engenheirados como fonte de celulose, pois seu  tempo de vida e sua capacidade de se espalhar são maiores que os do  milho e da soja geneticamente modificados. Para falar sobre o aumento da importância do  biodiesel nos Estados Unidos, a segunda reportagem chama a atenção  para os planos da companhia Renewable Energy Group, uma  spin-off da cooperativa de plantadores de soja West  Central: produzir cerca de 1,7 bilhão de litros do combustível,  somando-se a produção de todas as suas unidades.

Em agosto, a  empresa anunciou a construção de mais uma unidade, que será capaz de  refinar 227 milhões de litros de biodiesel por ano. Ela já acumula  US$ 100 milhões em financiamentos para o empreendimento — entre os  investidores está a divisão norte-americana da Bunge. Nile  Ramsbottom, presidente do grupo, disse ao jornal que espera faturar  US$ 740 milhões em 2010; no ano passado, foram US$ 116 milhões. A reportagem também contém informações sobre outras  companhias. A World Energy Alternatives, do Estado de Massachussets,  espera que as vendas de seu biodiesel, feito a partir de soja,  canola e gordura animal, ultrapassem US$ 100 milhões em 2006.

A  Imperium Renewables, fundada como Seattle Biodiesel, recebeu  investimentos de três empresas desde a primavera do ano passado,  totalizando US$ 10 milhões. A empresa, que hoje produz  aproximadamente 19 milhões de litros anuais, está construindo uma  unidade com capacidade para 378 milhões de litros. Há ainda a  Greenshift Corporation, cuja divisão de biocombustíveis recebeu US$  22 milhões em junho da empresa Cornell Capital Partners.

A maior  parte do dinheiro será usada na construção de uma planta de  biodiesel capaz de refinar cerca de 170 milhões de litros por  ano. Nos Estados Unidos, conta o The New York  Times, a produção do biodiesel triplicou de 2004 para 2005 e  chegou a aproximadamente 283,5 milhões de litros. A estimativa do  Conselho Nacional de Biodiesel é de que ela dobre este ano. Mais  otimista, o diretor-executivo do órgão, Joe Jobe, acredita que o  volume alcançará, e poderá ultrapassar, a marca de 945 milhões  litros.

Mas isso é pouco diante dos cerca de 530 bilhões de litros  de gasolina consumidos anualmente no país. No mundo, o biodiesel  também não tem ainda uma posição de destaque. Em 2005, informa o  jornal, o mercado global de biocombustíveis totalizou US$ 15,7  bilhões, porém só US$ 1,6 bilhão veio do biodiesel. De acordo com a  empresa de pesquisa Clean Edge, esse valor pode subir para US$ 7,1  bilhões em 2015.